
GSP Banco de Fomento Mercantil tem o factoring como atividade principal, diferente do que o André Castro vem anunciando em entrevistas antes da eleição no Conselho
A GSP Banco de Fomento Mercantil Ltda, empresa que o candidato à presidência do Corinthians André Castro apresentou como potencial investidora de US$ 1 bilhão no clube, não está registrada como banco, nem mesmo como instituição financeira, como afirmou o gestor em entrevistas.
Segundo o registro na Receita Federal, a GSP Banco de Fomento Mercantil Ltda, aberta em 3 de dezembro de 2010 e sediada em Goiânia (GO), tem sociedade de fomento mercantil – factoring como atividade principal.
Factoring é uma empresa comum, de natureza comercial, que compra créditos (contas a receber a prazo) de outra companhia e paga à vista, com desconto sobre o valor total. Com isso, a factoring fornece dinheiro de imediato à vendedora dos créditos e passa a ter o direito de recebê-los futuramente.
Um exemplo: uma loja que tenha R$ 1 milhão a receber a prazo recorre a uma factoring para antecipar o recebimento; a factoring faz o pagamento à vista de R$ 800 mil e fica com o crédito a prazo de R$ 1 milhão da loja para receber; o lucro da factoring é a diferença de R$ 200 mil.
— Banco é uma coisa completamente diferente de factoring. Não tem absolutamente nada a ver uma coisa com a outra, dos pontos de vista legal, negocial e operacional. Elas operam de maneiras completamente distintas. Única semelhança que existe entre elas é que as duas empresas fornecem dinheiro a quem precisa — destaca o advogado Fabiano Jantalia, especialista em Direito Bancário e sócio do Jantalia Advogados.
Uma das diferenças fundamentais é que, enquanto bancos operam com o dinheiro de terceiros, factorings trabalham com capital próprio.
Conforme o especialista, uma factoring não é regulada pelo Banco Central. Como não se trata de banco, instituição financeira ou empresa de pagamento, o Código de Defesa do Consumidor é a legislação pertinente no caso de problemas com uma sociedade de fomento mercantil.
— Hoje em dia, factoring são mais utilizadas por comércios de pequeno e médio portes e indústrias que não conseguem crédito no mercado. Grandes empresas, em geral, conseguem melhores condições de crédito com bancos — analisa o especialista.
— É preciso entender melhor as relações que se dariam entre a empresa e o Corinthians para saber se estaríamos diante de um contrato de patrocínio ou de uma operação de compra de créditos do clube — comenta o advogado.
— Eu nunca vi, neste mercado, uma empresa de factoring se propor a gastar um valor tão grande a título de patrocínio. Empresas de factoring não gastam em patrocínio, justamente porque o público delas não é o grande público. Eu não vou vender factoring para torcedor do Corinthians, do Flamengo ou do Grêmio. É para empresas.
Em entrevista coletiva nesta quinta-feira, André Castro apresentou uma carta da GSP, assinada pelo CEO Carlos César Arruda, em que a empresa se propõe a fazer um “aporte financeiro de até US$ 1 bilhão para fortalecimento estrutural e institucional do clube”.
— Este investimento abrangerá não apenas a reestruturação financeira e a modernização da Arena Corinthians, mas também uma série de iniciativas estratégicas já em desenvolvimento em conjunto com o grupo, envolvendo infraestrutura, marketing, categorias de base, futebol profissional e novos modelos de receita — consta em um trecho da carta, em que se lê que o aporte está condicionado à eleição de André Castro para a presidência do clube.
Questionada pelo ge, a assessoria de imprensa de André Castro alegou que a GSP Banco de Fomento Mercantil Ltda é “um banco de fomento de negócios financeiros, com registro no Sisbacen”. O Sisbacen é o Sistema de Informações do Banco Central.
Entretanto, o candidato não mandou para o ge, conforme solicitado, o registro no Banco Central. Ele disse que a empresa iria se pronunciar nesta sexta-feira.
Conforme André Castro, a proposta de investimento é por meio de “patrocínio do grupo de empresas parceiras do banco”. Conforme consultado pelo ge, porém, tanto a GSP Banco de Fomento Mercantil Ltda quanto a GSP Holding, que tem diversas empresas, não estão registradas no Banco Central.
O próprio site da GSP aponta que a empresa atua no segmento de fomento mercantil, que “se traduz em parceria comercial e prestação de serviços”, e o diferencia da atividade bancária.
— Eu tenho uma carta oficial de um banco. É oficial, é um banco. Eu sou do setor. Um banco, para chegar ao mercado e falar que vai investir este valor, sabe as consequências que dá para um banco chegar e não cumprir. Os bancos são geridos, são responsáveis, têm Banco Central por trás. Isso é muito sério.
— Se eu estou falando e estou mostrando e o banco está se manifestando, gente, eu acho que é totalmente suficiente e seguro para a gente acreditar e votar corretamente na segunda-feira — sustentou André Casto na entrevista coletiva.
Procurada pelo ge, a GSP Banco de Fomento se manifestou com a seguinte nota:
O GSP Bank of Assets, sediado em Goiânia, atua sob Instruções Normativas do Bacen e de gestão de ativos para o mercado nacional e internacional. A instituição é licenciada para oferecer serviços de custódia e liquidação, representação de bancos estrangeiros e administração de fundos por contrato ou comissões, além de atividades de consultoria e estruturação financeira.
Sua atuação é pautada pela gestão estratégica de investimentos, com foco em dar suporte a operações no mercado de capitais e ampliar o acesso de empresas e investidores a soluções financeiras sofisticadas. Embora o CNAE permita também a classificação como factoring e fomento mercantil, o foco central da instituição está na administração de fundos e na representação de instituições internacionais, consolidando sua relevância no setor de investimentos.
Depois do impeachment de Augusto Melo, o Corinthians fará uma eleição indireta no Conselho Deliberativo, na próxima segunda-feira, para escolher o presidente que comandará o clube em um mandato-tampão até o fim de 2026. André Castro é um dos concorrentes, ao lado de Roque Citadini e provavelmente de Osmar Stabile, o presidente interino.
Fonte: GE